Manaus, 6 de julho de 2020

Agenda anticorrupção não teve ‘impulso’ com Bolsonaro, diz Sergio Moro

Ex-ministro questionou falta de apoio no combate à corrupção
Por Raphael Sampaio
Publicado em 24/05/20 às 09h50

(Imagem: Reprodução TV Globo)

Até aqui, faltou ao presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), “impulso” no combate à corrupção. A avaliação foi feita pelo ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, em entrevista que é exibida pelo Fantástico, da Rede Globo, neste domingo (24).

Moro nega-se a dizer que tinha intenção de imputar crimes à Bolsonaro, mas disse que o “vídeo fala por si”.

Segundo Moro, a situação é diferente da imaginada por bolsonaristas. “Me desculpem aqui os seguidores do presidente, se essa é uma verdade inconveniente, mas essa agenda anticorrupção não teve um impulso por parte do presidente da República para que implementássemos”, disse.

Moro deixou o ministério em 24 de abril, acusando Bolsonaro de querer interferir na direção da Polícia Federal . Segundo o ex-ministro, o presidente exige subserviência do ministério, o que contrariaria suas próprias convicções.

“Eu acho que a minha lealdade ao próprio presidente demanda que eu me posicione com a verdade, com o que eu penso, e não apenas concordando com o presidente. Se for assim, não precisa de um ministro; precisa de um papagaio”, disse

Moro participou da reunião interministerial do dia 22 de abril, na qual alegou que Bolsonaro demonstrou interesse de trocar o comando da PF e a direção da PF no Rio de Janeiro.

O ex-juiz afirmou que a reunião cuja gravação foi divulgada anteontem pelo STF reforçou a dificuldade de argumentar com o presidente. “Pelo próprio tom da reunião, é muito claro que o contraditório ali não é algo muito fácil de ser realizado.”

Houve crime de Bolsonaro?

“Eu quando deixo o governo, fiz aquele pronunciamento e prestei depoimento, deixei muito claro que nunca foi minha intenção de prejudicar o governo de qualquer maneira o que aconteceu, no meu ver, foi uma interferência política do Presidente da República na PF, na direção geral e na superintendência do RJ. Entendi pela relevância do assunto que deveria revelar. Cabe agora à Justiça, à PGR. Da minha parte, não cabe emitir opinião a esse respeito”.

Como foi a conversa sobre Valeixo?

“Ele mandou essas mensagens, de fato, no dia 22, dizendo que ia mudar de qualquer jeito, só não especificou a forma. Isso mostra que dizer que não havia interferência não é correto. Tivemos a reunião ministerial na qual ele externou essas situações, que ia intervir, que o serviço de inteligência não funcionava. Ele ali, me parece claro, que ele se refere a mim. Eu não ía discutir isso numa reunião ministerial. O ambiente não era favorável ao contraditório”

Preocupação com os filhos

“Quem tem que dar essa explicação, dar o sentido dessas afirmações, é o Planalto, e não o ex-ministro da Justiça. O presidente externou publicamente diversas vezes preocupações com os filhos. Tem que ver o que ele entende como serviços de inteligência que, pra ele, estavam insatisfatórios”.

Sistema de informações privado

“Acho que isso tem que ser indagado ao presidente da República. O que ele quis dizer com esse serviço particular. O que me causou mais preocupação foi, me parece, o desejo que os serviços de inteligência particular fossem passados a ser prestados pelos serviços oficiais”.

Interferência na PF e a olhada de Bolsonaro

“Acho que o vídeo fala por si, quando ele olha na minha direção, evidencia que estava tratando desse assunto da Policia Federal. Temos que analisar os fatos. Em reunião, anteriormente, ele não teve dificuldade em alterar o serviço do GSI, promoveu as pessoas envolvidas, e os fatos posteriores: a mensagem que ele me manda na quinta de manhã, mais um motivo pra troca, após enviar mensagem relativa ao inquérito no STF, e a demissão do diretor Valeixo”.

Agenda anticorrupção abandonada

“Tem que entender, no fundo, essa questão da PF, vem num contínuo. Eu ingressei no governo e dei entrevista ao Fantástico, dizendo que tinha compromisso no combate à corrupção, à criminalidade, ao crime organizado. Em parte, isso foi realizado. Me desculpem aqui os seguidores do presidente, se essa é uma verdade inconveniente, mas essa agenda anticorrupção não teve um impulso por parte do presidente da República para que implementássemos”.

Por Uol

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