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7 de agosto, 2022

Após ‘exterminar’ o coronavírus, Nova Zelândia abranda confinamento

O país desenvolveu um sistema de alertas que varia de 1 a 4 conforme a gravidade da pandemia. Agora, passa a valer o nível de 3. Há menos de 300 casos no país e foi identificado apenas um novo nesta segunda.
Nova Zelândia
Nova Zelândia

Salário da primeira-ministra, dos ministros e dos principais funcionários públicos cortados em 20% por seis meses. Comércio, escolas, serviços e fronteiras fechados. Viagens limitadas, circulação de pessoas restrita somente ao essencial e multas para quem descumprir. E medidas econômicas para apoiar quem mais precisa. Essa foi a receita que permitiu com que a Nova Zelândia praticamente eliminasse o coronavírus de suas terras e seja capaz reabrir lentamente as atividades econômicas nesta terça-feira, 27. 

Nesta semana, restaurantes, canteiros de obras, escolas e varejistas começam a abrir cinco semanas depois de uma dura restrição de circulação de pessoas. O país desenvolveu um sistema de alertas que varia de 1 a 4 conforme a gravidade da pandemia. Agora, passa a valer o nível de 3. Há menos de 300 casos no país e foi identificado apenas um novo nesta segunda. 

“Estamos abrindo nossa economia, mas não estamos abrindo a vida social das pessoas. Para ter sucesso, precisamos caçar os últimos casos do vírus. É como procurar uma agulha no palheiro”, disse Jacinda Andern, Primeira-ministra da Nova Zelândia.

O mantra da estratégia do governo era, desde o início, agir rápido para eliminar o vírus – identificar, testar e tratar. Ainda era fevereiro quando o país adotou as primeiras restrições. E, com menos de 300 casos, decretou um bloqueio total – muito mais cedo que a maioria dos países. Decisão difícil, já que a nação de 4,8 milhões de habitantes recebe 3,8 milhões de visitantes por ano e tem no turismo e no comércio rendas importantes. 

“A decisão de fechar nossas fronteiras não foi fácil e trouxe impactos econômicos significativos”, reconheceu o embaixador da Nova Zelândia no Brasil, Chris Langley. “Mas o governo deu prioridade aos aspectos de saúde pública, acreditando que a recuperação econômica virá mais rapidamente com uma população saudável quando tivermos o vírus sob controle”. 

“Fiquei satisfeita quando foi anunciado que estávamos entrando em lockdown”, relembra a advogada Harriet Willis, moradora de Wellington. “Naquela época, havia dados mostrando que a Nova Zelândia estava na mesma curva que a Itália, embora nosso número de casos fosse baixo”.  

 A maior parte dos contaminados estava fora do país em viagem. Todas as pessoas que entram no país precisam aderir a uma quarentena imposta pelo governo, não apenas um isolamento autoimposto.   

Vantagens naturais e políticas da Nova Zelândia 

Mas outras características neozelandesas explicam o controle da disseminação do vírus. Uma é a vantagem natural, já que é uma nação insular e o controle de quem entra e sai do país é mais fácil. A outra é política: não há Estados separados no país e nem províncias. “Não há dinâmica federal x estadual em jogo”, explica o embaixador. A comunicação clara e direta com a população, especialmente pela primeira-ministra Jacinda Ardern, também é citada como explicação do sucesso do país no combate ao vírus. 

“Muito pouco é feito a portas fechadas. As pessoas são convidadas para reuniões virtuais entre os principais epidemiologistas da Nova Zelândia e o governo”, explica Annemarie Jutel, professora da Escola de Enfermagem da Universidade de Victoria em Wellington. “O modelo de comunicação oferecido, inequívoco e transparente, reconhece nossos sacrifícios e nos lembra de sermos gentis e de cuidar dos mais vulneráveis. Ninguém se desviou disso no espaço público”, afirmou Jutel. 

Oposição apoia

Até mesmo a oposição está apoiando as medidas e integra um comitê para lidar com a pandemia. “Precisamos nos unir durante esse período difícil, apoiar uns aos outros e mostrar compaixão”, escreveu em artigo recente Simon Bridges, líder do principal partido de oposição no país. “Queremos ser construtivos”.   

Segundo a professora Jutel, os governantes têm demonstrado importante respeito pela epidemiologia e pela saúde pública, deixando claro que as decisões têm base científica. O corte de salários anunciado pela primeira-ministra não terá muito impacto no orçamento público, mas foi bem visto e fez com que outras autoridades seguissem o exemplo. 

Pesou, ainda, o senso de responsabilidade comum. “Ficou claro que são os mais frágeis e vulneráveis que morrerão e é provável que nosso povo não aceite a ideia de que nossa liberdade possa ser construída com a morte e o sofrimento de nossos cidadãos vulneráveis”, disse a pesquisadora.

Estadão

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