Capacete-respirador: como o recurso funciona e ajuda pacientes com covid-19

Se os protótipos alcançarem o patamar ideal após os ajustes propostos na fase de testes, eles começarão a ser utilizados em pacientes.
Por Edilânea Souza
Publicado em 25/05/20 às 02h10
Capacete

Os “capacetes-respiradores”, dispositivos amplamente usados na Itália para o tratamento de pacientes com o novo coronavírus (Sars-CoV-2), estão aos poucos sendo implementados no Brasil.

Na semana passada, o Jornal da USP noticiou a produção de protótipos do objeto e o HC-FMUSP (Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) está testando capacetes feitos em parceria pelas empresas privadas Life Tech Engenharia e Roboris em seus laboratórios com uma equipe de pesquisadores do InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP).

Se os protótipos alcançarem o patamar ideal após os ajustes propostos na fase de testes, eles começarão a ser utilizados em pacientes.

Como funciona o capacete ventilador?

A ferramenta é uma interface entre o paciente e o aparelho de ventilação mecânica. “Ele é acoplado ao ventilador ou ao fluxo do oxigênio com pressão positiva de oxigênio. É um jeito de fazer como que o ar chegue ao paciente de forma não invasivo, diferente da intubação, que necessita um tubo orotraqueal”, aponta André Nathan, pneumologista do Hospital Sírio Libanês.

O capacete envolve a cabeça inteira do paciente e é selado com um colar macio e hermético que envolve o pescoço. “Outra vantagem é que ele não permite que o vírus se espalhe no ambiente, já que não permite que grande quantidade de gás vaze, e ainda é possível colocar um filtro na saída de ar. Também melhora a troca de oxigênio e não atrapalha troca do gás carbônico, além de ser mais confortável para o paciente do que a máscara, que aperta e pode dar a sensação de claustrofobia à algumas pessoas”, explica Carlos Carvalho, pneumologista e diretor da UTI do Incor.

A médica Ilma Aparecida, pneumologista, professora e pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que o uso não é tão comum no Brasil e que em um momento de emergência como o que estamos vivendo agora, os custos podem ser bem altos. “É algo descartável, só usa em um paciente. Ele também requer que o ar seja umidificado e aquecido — e o aparelho que faz isso é mais caro que o próprio capacete.”

Para se ter uma ideia, a versão do equipamento criado pela empresa Life Tech Engenharia, que passou a produzir dispositivos após o início da pandemia, tem um custo de R$ 627,00 a unidade. Inicialmente, a capacidade de fabricação da companhia é de 10 mil unidades ao mês, e o capacete também está em negociação para testes em hospitais de Minas Gerais e Bahia.

Dispositivo pode ajudar a reduzir número de internações

“O capacete não é tão eficaz quanto a intubação, mas o suporte que ele proporciona, em alguns casos, é suficiente para evitar a intubação”, indica Nathan.

Em 2016, pesquisadores da Universidade de Chicago realizaram um estudo que mostrou que o uso desses capacetes em vez de máscaras faciais comuns (a outra alternativa não invasiva) fez com que os pacientes tivessem três vezes menos chances de necessitar de intubação. O grupo que usou o dispositivo também passou menos tempo na UTI e teve melhor sobrevida.

Para que a terapia tenha maior chance de sucesso, a indicação necessita ser bem determinada. “O tratamento tem seus riscos e por isso deve ser feito em uma fase precisa da doença, sempre por uma equipe que conhece a interface e sabe como oferecer os cuidados de modo adequado”, indica Aparecida.

De acordo com a médica, a atenção à resposta do paciente é essencial para evitar outros problemas. “A pressão positiva também pode danificar o pulmão, assim como em outros tipos de terapia. Por isso, antes de aplicar a ténica em alguém, é necessário balancear riscos e benefícios.”

Interfaces devem começar a ser usadas em breve

De acordo com Carlos Carvalho, responsável pela UTI do Incor, desde abril, várias empresas e pesquisadores que se disponibilizaram a montar uma interface brasileira, buscando tornar possível o uso sem a importação.

No HC, a equipe testa materiais de três grupos: da Poli (Escola Politécnica da USP), de uma equipe de engenheiros de São Paulo e outra de Sorocaba. Os modelos são feitos de dois materiais diferentes. Um leva plástico mais maleável e outro é de acrílico, mais rígido.

“Fazemos sugestões de melhorias, testamos para checar se tem a oxigenação e troca de gás carbônico adequada e as interfaces voltam para as montadoras. Estou otimista e acredito que nesta semana já teremos um ou dois deles prontos para serem usados em pacientes”, indica Carvalho.

UOL

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