“Quando ele morreu não vi mais o corpo e doeu mais ainda”, relata artista que perdeu o pai para o coronavírus

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Pajé e coreógrafo da Tribo Muirapinima, de Juruti, Alisson Lima relembra ensinamentos do seu pai e contou que sempre lhe apoiou como artista.
Por João Paulo Castro
Publicado em 09/08/20 às 02h22

Manaus – No último sábado (8), véspera de Dia dos Pais, o Brasil alcançou a marca de 100 mil pessoas que morreram em decorrência do novo coronavírus (Covid-19). São vários entes queridos perdidos por muitas famílias que choraram suas perdas ao longo dos últimos meses. Uma dessas pessoas foi o artista Carlos Alisson de Lima Silva, que, pela primeira vez, não terá a companhia do pai Carlos Caetano da Silva, uma das vítima da doença em Juruti, no interior do Pará, distante 846 quilômetros da capital Belém.

Alisson Lima, como é popularmente conhecido no município paraense, contou em entrevista ao Portal Tucumã que seu pai era comandante da Marinha do Brasil e, sempre que tinha oportunidade, viajava com ele para diversas cidades, navegando nas águas do caudaloso Rio Amazonas.

O artista relembrou uma passagem quando, ainda criança, quebrou um vidro de mármore durante uma dessas viagens, mas o pai assumiu a responsabilidade na situação.

“Meu pai viajava muito, a gente se encontrava em poucos momentos. Uma vez quando eu era criança, em uma dessas viagens quebrei um vidro de mármore, na época custava uma fortuna. O dono do material começou a me xingar e eu chorei. Quando meu pai chegou achava que ele iria brigar comigo. Mas na verdade ele brigou com o homem e disse que iria pagar o vidro de mármore. Ele me abraçou e disse para não chorar mais. Isso ficou marcado na minha vida”, contou Alisson com sensação de nostalgia.

Seu Carlos em atividade – Foto: Arquivo pessoal

Com o passar dos anos, Alisson Lima tornou-se coreógrafo e pajé da Tribo Muirapinima, agremiação protagonista no Festribal, considerada uma das manifestações culturais mais famosas da Região Norte. Ele relata que é o artista da família e sempre recebeu apoio, principalmente do pai.

“A minha família toda sempre me apoiou. Nunca tiveram nada contra. Meu pai sempre me apoiou. Ele apenas não falava, mas o olhar dele era de felicidade e sempre esteve comigo, tanto na derrota quanto na vitória. O papai nunca falou nada abertamente para mim, mas sim para os meus amigos. Tenho certeza que ele amava acompanhar minhas apresentações na arena”, relembra.

Diagnóstico e falecimento

Alisson Lima e seus familiares enfrentaram a maior batalha de suas vidas na virada de maio para junho. Seu Carlos apresentou tosse e outros sintomas da Covid-19. Ele foi até o Hospital Municipal de Juruti e recebeu o diagnóstico da doença, que fez Carlos Caetano ser entubado.

“Foi uma época muito triste, os piores momentos na minha vida. Parecia que tudo estava acabando. Um pesadelo. Quando levamos meu pai para o hospital disseram que era apenas uma tosse. Teve uma leve melhora, mas depois fui informado que ele seria entubado. Uma semana depois a minha mãe e eu fomos diagnosticados com a doença, já que ela dormia no mesmo quarto que eu. Assim que meu pai foi entubado foi transferido para outra unidade hospitalar. Minha mãe chorava de um lado e eu para outro. Foi muito difícil”, disse o artista com sensação de tristeza.

No final da tarde Alisson recebia o boletim médico do pai, afirmando que o quadro de saúde era estável. Junto com seus familiares, Alisson viu seu pai entubado na cama do hospital.

Seu Carlos chegou a ser transferido para um hospital de Santarém e continuou o tratamento contra o vírus. Após muita luta, não resistiu à força da Covid-19 e faleceu na madrugada do dia 18 de junho, aos 64 anos de idade. A notícia caiu como uma bomba para a família.

“O meu pai sofreu uma parada cardíaca de madrugada. Ligaram para o meu irmão e disseram que papai morreu. Não aguentei. Abracei minha mãe e choramos juntos. Eu já sabia que não iríamos ver o corpo dele por causa da propagação da doença. Isso doía mais ainda. É uma sensação horrível. Espero que ninguém passe por isso e que Deus proteja todos nós”, contou bastante emocionado.

Legado

Neste Dia dos Pais, Alisson Lima reconhece a importância da presença de Seu Carlos. Apesar da cara fechada, como ele mesmo diz, seu pai era uma pessoa com coração puro.

“O relacionamento com meu pai sempre foi muito bom. Embora tivesse uma cara amarrada, sempre estava com a gente e nunca deixou faltar nada. Eu amo meu pai. Aonde ele estiver, creio que está olhando por nós”, ressalta.

O último Natal que Alisson Lima passou com a família – Foto: Reprodução/Facebook

Em mensagem aos leitores do Portal Tucumã, o artista e poderoso xamã da Tribo Muirapinima, diz que devemos aproveitar cada minuto ao lado de nossas famílias.

“Não está sendo fácil passar o Dia dos Pais sem ele. Já pensei em tantas comemorações que perdi, que poderia ter feito muita coisa para meu pai. Isso dói. Digo a todos que devemos cuidar das pessoas que amamos, que cuidem de seus pais, principalmente aqueles que fazem parte do grupo de risco”, alerta.

Foto: Reprodução/Facebook

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