Secretário de Saúde do Rio de Janeiro é demitido em meio a denúncias de fraudes em compra de respiradores

Dois sub-secretários da pasta já haviam sido demitidos por compras de respiradores fraudadas no governo fluminense
Por Raphael Sampaio
Publicado em 17/05/20 às 05h49

(Foto: Reprodução)

O governador Wilson Witzel decidiu exonerar o secretário estadual de Saúde Edmar Santos neste domingo, em meio a denúncias de fraudes na compra de respiradores. Ele vai deixar o cargo nesta segunda, mas integrará uma comissão de notáveis que auxiliam o estado no enfrentamento do Coronavírus, segundo o Governo do Rio anunciou em nota. A exoneração foi motivada por “falhas na gestão de infraestrutura dos hospitais de campanha para atender as vítimas da Covid-19” de acordo com o comunicado. O substituto será o médico Fernando Ferry, diretor do Hospital Universitário Gaffrée Guinle.

A troca no comando da pasta já havia sido antecipada pelo GLOBO desde o início da tarde de domingo. Sabia-se que o desgaste era grande porque a secretaria foi alvo da Operação “Favorito”, que apura desvios em contratos na área da saúde, e da Operação “Mercador“, que no início do mês prendeu os ex-subsecretário de Saúde Gabriell Neves e Gustavo Borges da Silva por suspeitas de compras superfaturadas na pandemia. Procurado pelo GLOBO, Edmar Santos não atendeu as ligações.

Nos bastidores do governo, circulava a versão de que Edmar Santos pediria exoneração nos próximos dias alegando pressão da família para que se afaste do cargo, como forma de preservar sua imagem. Informações dão conta que governador Wilson Witzel fará um pronunciamento neste domingo, em um vídeo que estaria sendo gravado nesta tarde. Braço direito de Witzel, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Lucas Tristão, citado num grampo na operação “Favorito”, também seria exonerado.

Procurado, Fernando Ferry também não atendeu, mas O GLOBO confirmou que ele participou de uma reunião nesta tarde. Uma imagem dele reunido com Witzel foi divulgada pelo Palácio Guanabara, junto com a nota que confirma a mudança na pasta. Confira a mensagem do Governo:

– O secretário de Estado de Saúde, Edmar Santos, deixa o cargo nesta segunda-feira (18/5).
– Edmar foi exonerado pelo governador Wilson Witzel por falhas na gestão de infraestrutura dos hospitais de campanha para atender as vítimas da Covid-19.
– Santos seguirá auxiliando o Estado e vai dirigir uma comissão de notáveis no enfrentamento à pandemia do coronavírus.
– O novo titular da pasta será o atual diretor-geral do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, Fernando Ferry.
– Clínico-geral e especialista em Aids, Fernando Ferry atuava como diretor-geral do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle e foi professor associado de Clínica Médica e Aids da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).
– Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), Ferry foi professor de Histologia e Embriologia na Universidade Gama Filho, na Universidade de Barra Mansa e na UFRJ.
– O novo secretário também é graduado em Medicina Veterinária e Técnica Agropecuária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ele é doutor e mestre em Parasitologia Veterinária também pela UFRRJ.

Fraude na Compra de respiradores

Deflagrada pela Operação Lava-Jato no Rio por meio do Ministério Público Federal do Rio (MPF), em parceria com a Polícia Federal e com o Ministério Público do Rio (MP-RJ), a Operação “Favorito” prendeu, na quinta, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Paulo Melo, e o empresário Mário Peixoto, após as investigações identificarem vínculos de negócios entre os dois.

Mário Peixoto foi preso em Angra dos Reis, na Costa Verde. Ele e é dono de empresas que têm contratos com as gestões de Sérgio Cabral e Wilson Witzel, inclusive para fornecimento de respiradores aos hospitais de campanha montados para receber pacientes com Covid-19. Os investigadores dizem que a “organização criminosa” desviou R$ 3,95 milhões em recursos públicos da saúde.

Após ser incluído no inquérito que investiga o suposto esquema de corrupção na compra de respiradores destinados ao tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus no Estado do Rio de Janeiro, Witzel enviou, neste sábado, uma mensagem para seus secretários fazendo uma menção a um esclarecimento que irá fornecer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre os desdobramentos da Operação “Favorito”. Segundo o governador, seu nome foi envolvido em “negociações espúrias”, sem qualquer participação da sua parte.

No início do mês, uma outra operação já havia abalado a Secretaria de Saúde. No último dia 7, o Ministério Público do Rio e a Polícia Civil prenderam nesta quinta-feira (7) Gabriell Neves, ex-subsecretário estadual de Saúde, que havia sido afastado em abril, e o seu substituto no cargo Gustavo Borges da Silba. Além dos dois, foram presos Aurino Batista de Souza Filho e Cinthya Silva Neumann.

O grupo é suspeito de ter obtido vantagens na compra emergencial (quando não há licitação) de respiradores para pacientes de Covid-19 no estado. No final de abril, as denúncias contra Neves já haviam sido relevadas, e contratos feitos por ele, que somavam cerca de R$1 bilhão, passaram a ser investigados.

No último dia 15 de abril, um inquérito foi instaurado para “eventual superfaturamento de ao menos R$ 4,9 milhões num contrato de R$ 9,9 milhões celebrado com a empresa 2A2 Comércio Serviços e Representações Ltda”, informou o MP. Cada aparelho teria saído por R$ 198 mil, mais que o dobro do preço no mercado brasileiro. Aurino, também preso, é dono da 2A2 Comércio Serviços e Representações LTDA, empresa de informática que ganhou contrato para fornecer respiradores para o estado.

Escolhido é especialista na pesquisa de HIV

O novo secretário de saúde será Fernando Ferry, que é superintentende do Hospital Gafrée Guinle da Unirio. Ele também é pesquisador, atua há 25 anos no atendimento a pacientes com HIV e foi o coordenador do primeiro mestrado de HIV/AIDS do Brasil , devidamente reconhecido pela Capes, participando de 110 dissertações em 6 anos na UNIRIO.

– Estudei minha vida toda no ensino público, desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Fui, e sou, usuário do Sistema Único de Saúde (SUS), 100% gratuito, por isso sempre tive na minha caminhada o objetivo de, por obrigação, oerecer ao poder público, tudo o que poder público fez por mim. O meu trabalho, entretanto, não teria sucesso sem o papel de cada um dos funcionários. Na verdade, eu não faço nada. O que faço é ouvir as pessoas, estimulá-las e deixá-las trabalhar e exercer o seu papel de funcionário público que serve à população. Eu tenho um respeito profundo por cada um de nossos colaboradores e gostaria de estender essa homenagem a cada um deles- finalizou Fernando Ferry.

No ano passado, um episódio envolvendo Ferry ficou famoso, quando ele dirigiu uma ambulância para ajudar no resgate de vítimas do Hospital Badim. Interlocutores da prefeitura dizem que o médico também era bem visto pelo prefeito Marcelo Crivella, e poderia assumir a Secretaria municipal de Saúde Procurado, Ferry não atendeu

Por Extra

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